Comportamento

A nova eternidade

maio 2011

Já foi dito que vivemos uma época de emoções efêmeras, de notícias em tempo real, dos famosos de 15 minutos. Uma era marcada pela futilidade de interesses instantâneos que evaporam na mesma velocidade com que surge a nova moda.

E é tudo verdade. Mas não toda a verdade.

De alguma forma, também vivemos uma era de uma perenidade nunca antes alcançada. Com poucos cliques, é possível acessar obras de todas as épocas - até aquelas que deviam estar esquecidas, para o bem de todos. O momento trivial, eterno favorito para cair no esquecimento, pode ganhar uma dimensão surpreendente, talvez eterna, se for registrado por uma câmera e cair na internet. São muitas câmeras hoje em dia e não falta espaço nos portais para armazenar mais um vídeo.

Esse intenso diálogo entre o efêmero e o eterno é uma novidade na sociedade. Nunca fomos tão instantâneos e tão perenes ao mesmo tempo. No entanto, se a cultura da rapidez tem ares de novidade, a busca pela eternidade nos acompanha desde sempre. Toda religião oferece um caminho para o homem transcender a própria vida, sugerindo para o indivíduo uma receita de como se tornar imortal, sobre como permanecer aqui, em outro lugar, na memória dos outros. A linguagem escrita surgiu para registrar em pedra, para sempre, a história e o legado dos povos. Mais tarde, a rocha foi substituída pelo papel e pela imprensa, capaz de perenizar as palavras não apenas em um meio físico, mas também na cabeça das pessoas ao ampliar a influência das ideias entre as culturas e as gerações.

A internet apenas potencializou a vocação humana de produzir conteúdo mirando o distante horizonte da eternidade. Talvez o único aspecto falso da atual safra de artigos eternos seja o excesso de memória, como se os computadores e seus gigas e teras bytes impedissem o indivíduo de esquecer obras, ideias e momentos. E o esquecimento é uma importante ferramenta de seleção entre o essencial e o dispensável.

Eternizar passa a ser mais do que sobreviver ao botão do delete. Se torna a difícil tarefa de transcender o disco ridígo, de continuar existindo na memória humana, na nossa memória afetiva, sem que ninguém necessite de uma ferramenta de busca para recuperar o esquecimento. Hoje, ser eterno é mais do que estar disponível online, é sobreviver no coração de alguém.
 

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