Comportamento
Pausa no calendário
dezembro 2011
Dezembro chega como um despertador às 7h30. Somos acordados de sopetão, atordoados entre o sonho e a realidade, sem acreditar que a noite (o ano) passou tão rápido. O mês das festas é antecedido de anúncios que provocam calafrios em muita gente. São sinais observados no shopping center ainda em novembro, quando os lojistas põem na vitrine a primeira decoração natalina. Nos comerciais de TV, duendes e velhinhos amáveis passam a ser os protagonistas de uma espécie de pesadelo coletivo: como assim o ano está no fim? Já é dezembro?
Guirlandas e renas nos lembram imediatamente da nossa incapacidade de controlar o tempo. Os segundos, as horas, os dias, as semanas, os meses se sucedem impiedosamente, e dezembro surge ameaçador, anunciando a impotência do homem diante do calendário. Entretanto, algo muda assim que chegam os primeiros de tantos convites de confraternização entre amigos, família e colegas de trabalho. O ponteiro do relógio segue rodando, mas ganhamos a chance de contemplar a passagem dos dias. Cada festa é uma oportunidade de uma conversa mais íntima, para celebrar algo mais profundo que as conquistas que ocorrem entre janeiro e novembro. É nesta época que podemos conviver com pessoas importantes que, por descuido, ficam de fora da agenda social ao longo do ano. Dezembro permite abraços mais apertados, perguntas mais sinceras e olhares cúmplices. O “tudo bem?” de dezembro não é igual ao “tudo bem?” de maio. Observamos quem envelheceu (todos nós), quem se deu bem, quem precisa de ajuda. Entre estes momentos, examinamos nós mesmos e percebemos como o tempo nos tratou ao longo dos últimos 12 meses e o que reserva para os próximos 12.
Dezembro permite uma pausa no calendário. Acontece tudo muito rápido, entre a compra de presentes, preparação de viagens e um chope com os amigos para fechar o ano. É um mês preso nesse paradoxo temporal: ao mesmo tempo que é movimentado e passa voando, é o único no qual o tempo se permite ser revisado, quando percebemos sobrinhos crescidos e avôs envelhecidos. A passagem do tempo, esta cruel sucessão de instantes que insistem em passar sem que sejam assimilados por completo, ganha um sentido durante as festas de final de ano.
Acordamos em dezembro.
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